Quarta, 26 de Agosto de 2026
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O feminicídio não é crime doméstico, é crime político!

O feminicídio não é crime doméstico, é crime político!

30/12/2025 às 09h49
Por: Redação
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O feminicídio não é crime doméstico, é crime político!

Por Edna Sampaio*

Mulheres não morrem apenas porque homens as matam. Morrem porque o Estado permite. Morrem porque a violência contra a mulher não é tratada como uma emergência política, mas como um ruído social tolerável, administrável e adiável. Necessário lembrar que, quem decide e controla os recursos do Estado são homens, especialmente em Mato Grosso.

O feminicídio, longe de ser um desvio, é o produto final de uma engrenagem institucional que falha sistematicamente — e essa falha não é acidental: é política.

Em Mato Grosso, a auditoria operacional realizada pelo Tribunal de Contas (TCE-MT) evidencia que o Estado não estruturou, não financiou e não coordenou nenhuma políitca pública capaz de proteger a vida das mulheres. O resultado dessa omissão é mensurável: Mato Grosso figura, pelo terceiro ano consecutivo, entre os estados com os maiores índices de feminicídio do Brasil, apesar de possuir população significativamente menor que estados como São Paulo. Foram 52 mulheres exterminadas por serem mulheres; mais de 80 crianças órfãs, marcadas para sempre pela fatal violência de gênero.

Esse dado desmonta qualquer tentativa de naturalizar o fenômeno como mero reflexo cultural ou circunstancial. O que se observa é um padrão — e padrões são sempre políticos.

A auditoria do TCE-MT revela ausência de planejamento integrado, inexistência de protocolos unificados, fragmentação e insuficiência da rede de atendimento, baixíssima cooperação federativa e insuficiência orçamentária. Essas falhas não são técnicas: são escolhas.

Toda violência contra a mulher é política porque ocorre dentro de uma estrutura de desigualdade de poder entre homens e mulheres, legitimada pela omissão estatal. Quando o Estado conhece o problema, reconhece sua gravidade e ainda assim não age, ele se torna parte do ciclo da violência.

Nos últimos três anos, apesar dos registros públicos e, da comoção social, Mato Grosso não realizou qualquer mudança estrutural relevante nas práticas institucionais, no planejamento, no orçamento ou na organização das políticas para mulheres em Mato Grosso. O que predominou foram discursos midiáticos, na ausência de política pública.

O feminicídio não é exceção, é método! É resultado direto de um Estado que não prioriza a vida das mulheres. Enquanto o enfrentamento à violência de gênero não for tratado como política central de Estado, as mortes continuarão sendo previsíveis — e mortes previsíveis são mortes permitidas, autorizadas e legitimadas.

O ano de 2026 nos convoca para um grande desafio civilizatório. Será necessário interpelar candidaturas, programas de governo e partidos: quais compromissos reais estão sendo assumidos para proteger a vida das mulheres? Será preciso que mulheres superem divergências e competições históricas, instituídas pelo patriarcado, para que possamos fiscalizar e cobrar daqueles que se elegeram, em nosso nome.

As escolhas que homens e mulheres farão nas urnas terão consequências diretas sobre quem vive e quem morre. Quando a questão das mulheres é empurrada para as margens do debate eleitoral, o resultado é a manutenção da estrutura que naturaliza a violência e produz o feminicídio.

A violência de gênero precisa ocupar o centro do debate público, com compromissos claros, metas explícitas, orçamento definido e mecanismos de responsabilização.

Sem isso, discursos genéricos continuarão encobrindo a ausência de políticas efetivas.

Mais do que nunca, é imprescindível que as mulheres assumam o protagonismo da luta contra a violência de gênero. Não como símbolo, não como retórica, mas como força política organizada, vigilante e intransigente. Do contrário, continuaremos sendo apenas peças de um jogo institucional que, ao nos negar proteção, normaliza a nossa eliminação.

Edna Sampaio - Doutora em Ciências Sociais, Profa da UNEMAT e Gestora Governamental, Presidente da Comissão Setorial Temática sobre, Feminicídio da AL/MT e 1ª. Suplente de Deputada Estadual/PT

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