
O líder da prefeita Flávia Moretti (PL) na Câmara de Várzea Grande, vereador Rogerinho da Dakar (PSDB), e o presidente do Legislativo, Wanderley Cerqueira (MDB), protagonizaram um embate durante a sessão dessa terça-feira (01.09). A discussão, iniciada após Rogerinho defender a gestão municipal diante da crise financeira, terminou com troca de acusações sobre a tramitação de projetos, questionamentos sobre um contrato do Departamento de Água e Esgoto (DAE/VG) e ordem para desligar o microfone do líder governista.
Na tribuna, Rogerinho afirmou que a Prefeitura enfrenta dificuldades para realizar investimentos devido a bloqueios judiciais relacionados a precatórios e dívidas acumuladas em administrações anteriores. Segundo ele, o passivo ultrapassa R$ 700 milhões.
“Quero aqui só esclarecer, como líder, que realmente a saúde financeira do município está no vermelho. [...] O Poder Executivo não está tendo hoje dinheiro para investimento porque foram bloqueadas as contas da Prefeitura devido aos precatórios, dívidas antigas que foram deixadas todos esses anos”, declarou.
O vereador afirmou ainda que esteve com Flávia Moretti na segunda-feira (31) e que, diante de um novo bloqueio, havia preocupação até mesmo com o pagamento da folha salarial.
“Ontem eu estive com a prefeita, nós não tínhamos dinheiro para pagar a folha salarial porque houve outro bloqueio. Essa é a verdade”, afirmou.
Rogerinho atribuiu a situação às dívidas herdadas de administrações anteriores e classificou o cenário como um “caos financeiro”.
“Hoje a prefeita Flávia está pagando o preço de dívidas que deixaram se arrastar e não tiveram o compromisso de pagar. [...] Está realmente um caos financeiro por dívidas antigas”, disse.
A manifestação provocou reação de Wanderley Cerqueira. O presidente da Câmara afirmou que estava com um projeto do Executivo em mãos e pretendia colocá-lo em votação, mas que a própria Prefeitura havia solicitado sua retirada.
“Não tem dinheiro e aí fica querendo jogar a Câmara contra o povo. Nós temos que ser verdadeiros, vereador”, rebateu Cerqueira.
Rogerinho pediu questão de ordem e respondeu ao presidente. Segundo ele, o projeto que previa recursos para o DAE estava na Câmara havia meses, antes dos bloqueios mencionados pela Prefeitura.
“Realmente, senhor presidente, temos que ser verdadeiros mesmo. Esse projeto de lei está desde março, o qual [o Executivo] enviou para esta Casa de Leis, pedindo essa suplementação para o DAE, o qual estamos numa calamidade pública pela água. Desde março está nessa Casa de Leis”, afirmou.
O líder governista também acusou Cerqueira de retardar a votação de outros projetos, citando uma proposta que concedia desconto de até 98% sobre juros e multas e parcelamento em até 36 meses para contribuintes regularizarem débitos.
“O senhor segurou o projeto e votou duas sessões para trás. O senhor não pensou na população. Porque, se o senhor pensasse na população, colocaria de forma emergencial vários projetos que estão aí, estão sendo segurados nesta Casa de Leis, porque beneficiam o povo de Várzea Grande”, disparou Rogerinho.
O vereador voltou ao projeto relacionado ao DAE e questionou por que a matéria não teria sido votada anteriormente.
“Naquele momento não tinha calamidade pública, naquele momento não teve bloqueio. E o senhor não pensou na família várzea-grandense, que não tem água na torneira. Desde março, senhor presidente, o senhor não foi capaz de colocar para votar o projeto”, afirmou.
A discussão então mudou de tom. Cerqueira passou a questionar Rogerinho sobre um contrato firmado no período em que o vereador esteve à frente do DAE. Segundo o presidente da Câmara, um contrato que seria de aproximadamente R$ 800 mil teria passado para R$ 3,8 milhões.
“O contrato do DAE de 800 e poucos mil, que Vossa Excelência passou para R$ 3 milhões e 800. Você pensou no povo? [...] É assim que pensa no povo?”, questionou Cerqueira.
Rogerinho reagiu e pediu que o presidente apresentasse publicamente o documento citado.
“Senhor presidente, eu gostaria que Vossa Excelência colocasse o contrato a público”, respondeu.
Na sequência, Wanderley Cerqueira determinou que o microfone do líder da prefeita fosse desligado, encerrando a discussão.
O embate ocorre poucos dias depois de a Prefeitura de Várzea Grande retirar da Câmara o projeto de lei que previa transferência financeira intragovernamental ao DAE para cobertura do déficit operacional.
A retirada foi formalizada em 27 de agosto, por meio do Ofício nº 1.648/2026, assinado pela prefeita Flávia Moretti e encaminhado a Wanderley Cerqueira.
A proposta havia sido enviada ao Legislativo em 28 de abril, por meio do Ofício nº 854/2026, e estabelecia regras para transferência de recursos ao DAE, além de condições de execução, controle, responsabilidade fiscal e sustentabilidade econômico-financeira dos serviços de água e esgoto.
Ao justificar a retirada, a Prefeitura apontou mudanças no cenário jurídico, administrativo e financeiro desde o envio da proposta. Entre elas estão os decretos municipais que reconheceram situação de calamidade financeira na Administração Municipal e no DAE e a celebração do Termo de Compromisso de Ajustamento de Conduta (TAC) nº 02/2026.
O TAC foi firmado em 22 de julho entre Ministério Público de Mato Grosso, Município, DAE, Governo do Estado, Agência de Regulação dos Serviços Públicos Delegados de Mato Grosso (Ager/MT) e Tribunal de Contas do Estado (TCE-MT).
Segundo o Executivo, diante da demora na tramitação e das medidas adotadas posteriormente, foi construída outra alternativa para atender às necessidades do DAE e da população.